Mensagem da Visitadora.
Jubileu do 350º Aniversário da morte de São Vicente de Paulo e de Santa Luísa de Marillac

Há uma memória que é mera recordação do passado, uma memória morta, uma memória arquivada, passiva, desativada. Não é o caso deste Jubileu Vicentino que tem o poder de convocar e mobilizar a Família Vicentina, porque não estamos celebrando a morte, mas sim a razão pela qual deram suas vidas. Celebrar a memória da morte de São Vicente e Santa Luísa é para nós, atualizar, agradecidos a vida que eles entregaram e comprometer-se a tomar parte na mesma entrega. Nisto reside o poder da memória. Este ano jubilar, portanto, torna o passado, presente, não como mera recordação, mas como presença viva, porque definitivamente, através de cada uma de nós, São Vicente e Santa Luísa continuam presentes e atuantes.
Todos nós da Família Vicentina nascemos de uma forma ou de outra de uma inspiração que chamamos Carisma. Um Carisma é sempre uma expressão de vida que se traduz por uma capacidade de sentir e discernir as necessidades maiores de uma época, por uma paixão de realizar projetos em vista de pessoas, de um povo onde se está, pela coragem no agir e transformar a realidade.
Gostaria de lembrar aqui uma narrativa árabe, que vem bem a propósito, neste momento tão significativo para nós da Família Vicentina.
Conta a narrativa, que um monge partilhava com um peregrino a sua experiência de deserto. Dizia ele: “No deserto quando se vê um vulto a longa distância, não se pode distinguir, se é uma pessoa ou um animal. A medida que a gente se aproxima, pode-se perceber que se trata de uma pessoa. Mas somente quando se vence toda a distância e chega-se perto da pessoa é que se reconhece nela um irmão, uma irmã.”
No mundo globalizado de hoje, onde o sistema gera uma situação de desagregação social, de exclusão desumanizadora e violência, muitos não conseguem mais distinguir a pessoa de um animal, nem mesmo de um objeto. A ganância, a exploração, o preconceito, o individualismo distanciou-os de tal forma da realidade dos pobres, que eles vivem no seu mundo, alienados, descomprometidos com a história, desconectados das grandes questões da humanidade. Os dados estatísticos atuais são gritantes e mostram claramente as consequências desastrosas dessa distância criada.
Um segundo grupo procura com esforço e boa vontade uma aproximação maior com os pobres e começa a reconhecer neles, pessoas, cujos direitos fundamentais precisam ser resgatados e respeitados. Essa aproximação tem resultado em compromissos de solidariedade, parcerias, ONGs, projetos comuns, etc.
Mas, um pequeno grupo tem a coragem audaciosa de encurtar toda a distância, indo ao encontro dos mais carentes, do povo sofrido, convivendo com eles, comungando de seus sonhos e esperanças, participando de suas lutas, conquistas e descobrindo nessa convivência solidária, fraterna, o rosto de verdadeiros irmãos e irmãs. Neste grupo queremos estar nós, da Família Vicentina, encurtando as distâncias, indo ao encontro dos verdadeiramente pobres, em especial neste ano Jubilar, nós que ousamos seguir por vocação e missão as pegadas de Vicente de Paulo e de Luísa de Marillac.
A celebração dos 350 anos vem para nos lembrar que não existe caminho pronto, que todo ponto de chegada é também ponto de partida. São Vicente e Santa Luísa fizeram o caminho deles. Nós fazemos o nosso na medida em que acreditamos que o impossível não existe para aqueles que descobrem o segredo de entrar na dinâmica do aprender fazendo. Como Família Vicentina, precisamos acreditar sempre mais que construir juntos, realizar projetos, caminhar de mãos dadas na mesma direção, tudo isto é uma arte que envolve, de um lado a consciência de nossos limites e potencialidades e de outro, habilidades e compromissos com os objetivos comuns.
O ano Jubilar nos convida a rever nossa fidelidade criativa ao hoje da história. Não se trata de refundar o Carisma porque ele já foi fundado, e sendo um dom, é para sempre. Não se trata tão pouco de revitalizar porque o Carisma, por natureza, carrega em sua própria essência a seiva de vida. Trata-se, então, do que? De dinamizar o Carisma. Dinamizar é qualificar o movimento de modo a fortalecer, aprofundar, alimentar o processo. É destravar, remover obstáculos, fazer caminhar, superar práticas ultrapassadas e criar novas, vencer preconceitos, colocar energia nos sonhos, nos projetos, nas metas. Dinamizar é colocar asas e pés no Carisma. Pés, para não perder o contato com a realidade sofrida dos pobres de hoje. Asas, para ir e vir com disponibilidade, partir e repartir com eles, a vida em abundância que Jesus veio trazer para todos.
Que este ano Jubilar seja para todos nós, filhos e filhas de São Vicente, um tempo favorável:
* tempo para resgatar nossos valores vicentinos de simplicidade, partilha, humildade e diálogo;
* tempo de libertação do medo, do egoísmo, de esquemas e respostas prontas que atrapalham a acolhida do novo de Deus em nossas vidas;
* tempo de escutar a voz de Deus nos clamores do povo que sofre, tempo de acolher seus sonhos e temores;
* tempo de celebrar a gratuidade do amor de Deus que nos chamou e reuniu como Família Vicentina para fazer, no dizer de São Vicente, o que Jesus fez enquanto estava na terra: cuidar dos pobres.
Bem oportuno para nós, nesta comemoração dos 350 anos, são as palavras do Papa João Paulo II, de saudosa memória, dirigida aos religiosos, quando dizia: “Vocês não tem apenas uma história gloriosa para recordar e contar, mas uma grande história para construir. Ponham seus olhos no futuro, para onde o Espírito impele para continuar fazendo com vocês grandes coisas.” (VC 110)
Abertura dos 350 anos: estamos recordando a morte para continuar construindo vidas. É o jeito mais profético de fazer memória, é a melhor forma de celebrar o jubileu de pessoas, cuja existência, foi doação total a Cristo no serviço dos pobres.
Que o Espírito de Deus que animou São Vicente de Paulo e Santa Luísa de Marillac, nos impulsione a fazer deste Jubileu, a grande convocação para um compromisso mais efetivo com os pobres, o tempo oportuno de ir além do que já foi feito, a hora de prosseguir decididamente em direção ao que nos propomos.
Este é o nosso momento. Que Deus, a história e os pobres nos encontrem fiéis.
Irmã Paula Pereira Alves,
Visitadora
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