31/01/2018

CONECTANDO RELAÇÕES: aproximar (subsídio temático 1)

 

Nosso projeto pedagógico-pastoral 2018 - “Conectando Relações” - assume um itinerário de temático sustentado por verbos que dialogam diretamente com o processo relacional em suas diferentes interfaces. A sequência e sentido destes verbos, por sua vez, não tem a intenção de indicar um processo linear e restrito, mas se articulam numa perspectiva progressiva e aberta que envolve a dinamicidade das relações e a pluralidade daqueles/as que as protagonizam.

 

Neste sentido, a intenção destes subsídios específicos é nos ajudar a aprofundar reflexiva e didaticamente como estas palavras-chaves se articulam com a proposta educativa vicentina e ganham concretude no cotidiano escolar, em sintonia com o objetivo do projeto orientador do ano. Esta proposta é assumida horizonte da evangelização que integra nossa missão como escola católica e vicentina.

 

APROXIMAR: o primeiro passo

 

1. Etimologia:

Aproximar/aproximação deriva do latim aproximare/proximus, que significa “aquele que está mais próximo”[1].

 

2. Contextualizando:

 

As relações que construímos brotam da constatação da existência do outro (alter). Frente à pessoa ou à realidade que está para além de nós, somos movidos/as ao exercício da aproximação que nos possibilita estabelecer vínculos, romper preconceitos, despertar empatia e reconciliar nossas diferenças. Muitas das dificuldades que encontramos em nossas relações cotidianas se sustentam na ignorância ou indiferença que mantemos em relação ao/à outro/a. Por vezes, emitimos opinião sobre as outras pessoas ou sobre determinada situação nos orientando unicamente por nossos pontos de vista, nossos valores e critérios; em outros momentos, nossas opiniões são sustentadas pelo senso comum ou pelos comentários ambíguos que ouvimos de outrem; outras vezes, pela assimilação acrítica das informações que recebemos pelos meios de comunicação, especialmente pelas redes sociais.

 

Aproximar é, assim, um primeiro passo da disposição sincera ao conhecimento mútuo que sustenta as relações; é um primeiro exercício de interpretação da vida e do mundo. De igual forma, aproximar-se comporta o duplo movimento de buscar a proximidade de outrem, mas também de sair de si, de reconhecer que existe um universo de existências e experiências que nos ultrapassa, e que nos ajudam a descobrir algo sobre nós mesmos/as e sobre o sentido de nosso viver. No âmbito do autoconhecimento e da autocrítica, aproximar é colocar diante de nossos olhos e de nossa consciência aspectos de nossas identidades pessoais que, por vezes, somos tentados/as a negar, ocultar ou relativizar, tanto no que se refere às nossas potencialidades ou aos nossos limites. Assim, a aproximação seja ela de si, do/a outro/a ou das realidades que nos circundam, pede de nós um compromisso com a verdade.

 

Aproximar/aproximar-se não se resume a uma curiosidade estratégica de obter mais informações ou conhecer superficialmente a algo ou alguém. Compreende, porém, uma disposição lúcida e gratuita de permitir que o/a outro/a possa existir e se pronunciar em primeira pessoa, sem ser premeditadamente revestido/a por nossos juízos de valor ou até mesmo por nossos “achismos”. Nesta tarefa, a espiritualidade se apresenta como uma via preciosa que orienta nossas aproximações. O cultivo da vida interior, de nossa relação com o sagrado – no olhar cristão, a experiência do Deus revelado em Jesus de Nazaré – nos ajudam a viver uma aproximação integrada e integradora.

 

3. Ouvindo a Palavra de Deus:

 

Em linhas gerais, as Escrituras nos falam da proximidade entre Deus e a humanidade numa experiência relacional que se fundamenta no amor e na liberdade. Vivida na perspectiva da Aliança, essa proximidade atinge seu ápice em Jesus de Nazaré, imagem visível do Deus invisível, reconciliação definitiva entre o divino e o humano (cf. Cl 1, 15. 20). A experiência histórica de Jesus que nos é dada a conhecer pelos Evangelhos é feita de gestos e atitudes de aproximação. Em sua missão de proclamar o Reino de amor, paz e justiça do Pai (Lc 4, 18-19), Jesus revela a proximidade de Deus com o seu povo, de modo singular com os pequenos (Mt 11, 25-26). As relações que Ele estabelece com seus contemporâneos confirmam essa proximidade.

 

Da mesma forma, a Bíblia nos fala que aqueles e aquelas que assumem o seguimento de Jesus são convidados/as a fazer-se próximos/as, conforme nos fala a parábola do samaritano (Lc 10, 31-37). Em resposta à pergunta do doutor da Lei sobre “quem é o meio próximo” (v. 29) Jesus inverte a lógica ao propor que o sentido está em fazer-se próximo, como todas as exigências que esta proximidade exige: “[...] vai e tu também faze o mesmo” (v. 37b) é o imperativo que hoje é repetido a cada um/a de nós.

 

Em Lucas 24, 13-35 encontramos outra perícope que nos coloca no itinerário da aproximação. Depois de contemplarem seu Mestre sendo morto na cruz, dois discípulos rumam de Jerusalém a Emaús e neste percurso o Senhor Ressuscitado os alcança (v. 15) e começa a caminhar com eles. Essa atitude pedagógica de Jesus de unir seus passos ao ritmo dos passos e do diálogo dos dois nos apresenta um exercício de aproximação que serve de inspiração para nossa prática educativa. Essa sintonia de percurso estabelecida por Jesus ao aproximar-se, permitiu-Lhe adentrar respeitosamente no universo dos sentimentos e expectativas dos discípulos e assim, junto com eles, possibilitou ressignificar as experiências vividas.

 

4. Pensando nossa ação educativa

 

O processo educativo pode ser entendido como uma progressiva experiência de aproximação. Nossa proposta pedagógica traduz isso no modo como concebe o processo de ensino-aprendizagem na interação entre educando/a – educador/a – conhecimento. Educar não se resume a uma transmissão sistemática de conceitos e experiências científicas, para as quais a realidade que nos cerca e as outras pessoas envolvidas nesse processo são mera paisagem ou figurantes. Educar é estabelecer-conectar relações entre indivíduos e contextos onde os conteúdos sistematizados e aprimorados pelo rigor científico estão intrinsicamente ligados à vida pessoal, comunitária, social. Aproximar esses diferentes interlocutores é o primeiro passo para uma educação que se advogue integral.

 

No cotidiano da comunidade educativa, “aproximar” é uma atitude-convite que se apresenta de diferentes formas. Todo início de ano letivo, por exemplo, é uma grande experiência de aproximação; por mais que, em grande maioria, os/as educandos/as e educadores/as sejam os/as mesmos/as que concluíram conosco o ano anterior, começar um novo ciclo comporta uma abertura à novidade, qualificada pelos aprendizados existenciais que nos acompanham. Não obstante, os/as novos/as educandos/as e educadores/as que passam a incluir a comunidade educativa pedem de nós uma aproximação humano-afetiva, pedagógica e pastoral diferenciadas. Como podemos fazer-nos próximos destes/as irmãos/ãs?

 

Na maneira como concebem sua própria área de saber e articulam as metodologias utilizadas em sala de aula, os/as educadores/as protagonizam fecundos processos de aproximação já. Uma aula que é ministrada unicamente como cumprimento de um conteúdo programático prévio, que não aguça a curiosidade para o novo torna-se incapaz de gerar aproximação. Aproximar é abrir espaço para a criatividade, que sempre traz consigo a partilha e a esperança. Nos diferentes setores da Instituição Educativa, aproximar é olhar com interesse e zelo tudo que se refere à vida da escola, sabendo que as mais simples tarefas executadas com senso de responsabilidade e sentido de pertença ao projeto educativo fazem a diferença e imprimem coerência a este.

 

Pastoral Escolar Vicentina - Província de Curitiba

 

(OBS: Texto completo no anexo).

 


[1] Disponível em: . Acesso em: 26 dez. 2017.

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